

SE IR E VIR É UM DIREITO,
POR QUE AINDA TEMOS MEDO?
Como a constante insegurança das mulheres no transporte urbano acende alerta e impulsiona apps como o Lady Driver
Por Ester Moraes, Gabrielli Pereira e Natália Borges

Com foco na proteção de passageiras, Lady Driver já soma milhares de usuárias no país. | Foto: Natália Borges
Ser mulher em uma sociedade marcada por desigualdades de gênero significa, em muitos momentos, conviver com o medo. Esse medo não é um sentimento isolado ou fruto da imaginação, mas sim o reflexo de uma realidade concreta: a violência contra a mulher segue como uma das violações mais persistentes dos direitos humanos em todo o mundo. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), uma em cada três mulheres já sofreu algum tipo de violência física ou sexual ao longo da vida.
No Brasil, os dados também revelam a dimensão do problema: de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2023, o país registrou mais de 245 mil casos de violência doméstica, quase 70 mil estupros e 1.437 feminicídios. Esses números evidenciam que, embora avanços tenham sido conquistados em termos legislativos e sociais, a realidade cotidiana das mulheres ainda é atravessada pela violência.Quando falamos em violência contra a mulher, é importante compreender que ela não se restringe ao âmbito doméstico ou conjugal.
Ela assume múltiplas formas: psicológica, moral, patrimonial, física e sexual. Pode ocorrer em ambientes familiares, profissionais, educacionais e, de forma alarmante, também nos espaços públicos. A rua, o ônibus, o metrô, o ponto de transporte coletivo ou mesmo o trajeto entre a casa e o trabalho se transformam em cenários de vulnerabilidade. Ou seja, a cidade, que deveria ser um espaço de liberdade e mobilidade, muitas vezes se converte em território de medo e restrição.O transporte como espaço de violência cotidianaNo transporte urbano, essa violência se manifesta principalmente em forma de assédio sexual.
São olhares insistentes, comentários de cunho íntimo, toques indesejados e, em casos mais graves, agressões físicas. Um estudo realizado pela ActionAid revelou que 86% das mulheres brasileiras já sofreram assédio em espaços públicos, sendo os transportes coletivos um dos locais mais citados. Em São Paulo, por exemplo, a Companhia do Metropolitano registrou centenas de ocorrências de importunação sexual dentro dos trens nos últimos anos, mesmo com campanhas de conscientização e canais de denúncia disponíveis.Esse tipo de violência, muitas vezes naturalizado ou minimizado como “brincadeira”, traz consequências profundas.
A mulher que é assediada em um ônibus, por exemplo, pode passar a evitar determinados trajetos, mudar seu horário de deslocamento ou até mesmo desistir de oportunidades de estudo e trabalho por medo de ser alvo da violência novamente. O impacto, portanto, não é apenas individual: ele afeta a liberdade de circulação, a autonomia e a inserção social das mulheres como um todo.É nesse contexto que o debate sobre a violência contra a mulher nos transportes urbanos ganha força. O tema revela como o machismo estrutural atravessa até mesmo as práticas mais rotineiras, como pegar um ônibus ou metrô para ir ao trabalho.
Além disso, ele chama atenção para a necessidade de repensar políticas públicas, criar mecanismos de proteção e responsabilizar os agressores. Não se trata apenas de coibir o assédio quando ele acontece, mas de transformar a cultura que o legitima. Para aprofundar esse debate e compreender com precisão os contornos legais do problema, ouvimos a advogada Camila Pereira, que acompanha casos relacionados aos direitos das mulheres. Camila começa desfazendo um equívoco comum: nem todo ato abusivo em transporte é “assédio sexual” na acepção jurídica temos algumas diferenças.
“Temos o assédio moral/sexual, que ocorre geralmente em ambiente de trabalho, quando há uma relação hierárquica, patrão e funcionária, por exemplo.” Já em ônibus, metrôs e carros de aplicativo, a figura penal mais comum é outra: “Geralmente, em transportes públicos, o que mais acontece é a importunação sexual, porque não há relação de subordinação; é a mão, a cantada, o toque indesejado. E o estupro é o ato lesivo propriamente dito, a prática libidinosa forçada.”
A distinção é central para que vítimas e testemunhas saibam identificar o crime, registrar corretamente a ocorrência e cobrar responsabilização.Apesar dos avanços trazidos por leis como a Lei Maria da Penha (2006), que criou mecanismos de enfrentamento à violência doméstica e familiar, e a Lei de Importunação Sexual (2018), que tipificou como crime condutas antes consideradas contravenções, ainda existe um longo caminho a ser percorrido. A aplicação dessas normas nos espaços públicos, como ônibus e metrôs, enfrenta desafios relacionados à denúncia, à coleta de provas e à responsabilização.
Em muitos casos, a vítima não encontra apoio imediato, teme se expor ou não confia que a justiça será feita. A advogada reconhece que há um vácuo entre o que a lei prevê e o que as mulheres de fato vivenciam no cotidiano: “Questão de política pública propriamente dita, nós não temos. Leis, nós temos, assédio, estupro, importunação, todas tipificadas no Código Penal. Existem canais de denúncia e campanhas de conscientização, mas, funcional, assim, não é.”

Camila atualmente mora em Marília e atua na advocacia há cerca de 7 anos | Foto: arquivo pessoal
Falhas na estrutura e no suporte às vítimas
Outro fator agravante é a própria estrutura do transporte urbano no Brasil. Ônibus lotados, vagões sem segurança suficiente, ausência de câmeras de monitoramento em algumas regiões e a escassez de agentes treinados para lidar com situações de assédio criam um ambiente propício para a violência. Em muitas cidades, sequer existem protocolos claros para acolher as vítimas. O resultado é que a responsabilidade pela autoproteção recai, mais uma vez, sobre as mulheres, que recorrem a estratégias como carregar chaves nas mãos, enviar localização em tempo real ou escolher rotas alternativas.
Essa realidade se desdobra também em carros de aplicativo, ambiente que muitas passageiras passaram a utilizar por acreditarem que a corrida individual, mediada por tecnologia, seria mais segura do que o ônibus lotado. A experiência de campo, no entanto, mostra que o risco não desaparece, apenas muda de forma. Camila relata um caso recente que ilustra o problema: “Uma colega pegou um Uber e, pelo retrovisor, viu o motorista se masturbando. Ela denunciou no canal da plataforma, fez boletim de ocorrência, mas ele não foi banido. Fomos verificar depois, e nada tinha acontecido. Continuava dirigindo. Para seguir adiante, seria uma confusão, uma dor de cabeça que ela não queria enfrentar.” O relato expõe o que muitas mulheres vivem: o desgaste emocional, somado à lentidão ou à ineficácia de providências concretas, desestimula a continuidade do processo.
Do ponto de vista jurídico, Camila reforça os caminhos que toda vítima pode e deve acionar: “Sofreu importunação sexual? Na hora, faça um boletim de ocorrência. Procure a Delegacia da Mulher, use o boletim online se for o caso, e vá até o fim. Ingresse com ação na esfera criminal e busque seus direitos.” Ela reconhece que esse percurso não elimina o trauma, mas é indispensável para que o Estado veja a vítima, para que o caso entre nas estatísticas e para que se pressione por respostas institucionais mais efetivas.
O tema também precisa ser olhado sob a ótica interseccional. Mulheres negras, periféricas e de baixa renda estão mais expostas à violência nos transportes urbanos, pois dependem majoritariamente do transporte coletivo e percorrem longos trajetos diariamente. Já mulheres com deficiência enfrentam não só o risco de violência, mas também barreiras físicas e estruturais que limitam ainda mais sua mobilidade. Assim, o debate sobre segurança no transporte urbano deve considerar as múltiplas camadas de vulnerabilidade que atravessam a experiência feminina.
Se, por um lado, empresas de ônibus divulgam números de 0800 e aplicativos de mobilidade oferecem canais de denúncia para bloquear motoristas ou passageiros infratores, por outro, a sensação de impunidade ainda é presente. “Tem canais de denúncia que ajudam, ônibus com 0800, Uber e 99 com suporte, mas ausência de políticas públicas estruturadas faz com que muitas mulheres se esgotem emocionalmente e desistam no meio.” Esse esgotamento se conecta a outro fenômeno: a subnotificação.
Segundo Camila, com base em um levantamento rápido feito por ela a partir de relatos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, “apenas cerca de 4% das mulheres concluíram as denúncias iniciadas em transporte público, no último ano observado”. O dado, ainda que preliminar, indica a dimensão de um silêncio que mascara a real incidência do problema, e evidencia por que as estatísticas oficiais, sozinhas, não dão conta da magnitude do que acontece nos trajetos diários das mulheres.
O perigo acompanha o trajeto
Olhando pela perspectiva do ônibus, uma nova pesquisa divulgada em 2025 pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva em parceria com a Uber revela que quase metade das mulheres já foram assediadas dentro desse transporte, número que acompanha o aumento nos casos de importunação sexual. O gráfico abaixo mostra as proporções de diferentes tipos de assédio relatados, indo de olhares insistentes ou cantadas inconvenientes até agressões físicas e estupro, evidenciando a gravidade e diversidade desses episódios de violência. Essa pesquisa contempla as cidades de Belém, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

Em meados de 2010 os aplicativos de transporte se popularizaram e mudaram radicalmente a forma de se deslocar nas cidades brasileiras. Em poucos toques no celular, um carro chega até a porta de casa e, em minutos, a passageira já está a caminho. A praticidade fez com que esse modelo de mobilidade se tornasse parte do dia a dia de milhões de pessoas. Mas, junto com a conveniência, emergiu também um problema que acompanha historicamente as mulheres nos espaços urbanos, o assédio.
Para muitas passageiras, a corrida de aplicativo não é apenas um trajeto entre dois pontos, mas um momento carregado de tensão. Há quem compartilhe relatos de olhares insistentes, perguntas invasivas sobre a vida pessoal, comentários de cunho sexual ou mesmo tentativas de contato físico durante a viagem.
Este estudo foi realizado no período de 21 de junho a 11 de julho de 2024, e contou com a participação de 4.001 mulheres com 18 anos de idade ou mais, que saem de casa ao menos uma vez por semana.
Do outro lado do volante, motoristas parceiras também relatam situações de constrangimento e risco. Sozinhas com desconhecidos em um espaço fechado, às vezes em horários noturnos ou em trajetos longos, elas se tornam alvos de piadas, cantadas indesejadas ou, em casos mais graves, importunação sexual.
Esse cenário não é um fenômeno isolado dos aplicativos. Ele é continuidade de um problema já conhecido no transporte público brasileiro: o assédio em ônibus e metrôs, denunciado há décadas, mas ainda presente. A novidade é que, ao migrarem para os carros por aplicativo, muitas mulheres buscavam uma alternativa mais segura, acreditando que o ambiente controlado da plataforma digital as protegeria. No entanto, logo perceberam que a violência de gênero também se manifesta nesses espaços, apenas em outros formatos.
Nos carros de aplicativo, a experiência de muitas mulheres é atravessada pelo medo do assédio. Para motoristas, essa insegurança é quase uma constante. Levantamento realizado pela 99 em parceria com a consultoria Think Eva mostra que os motoristas acreditam que ser mulher aumenta os riscos nesse tipo de trabalho. A proteção desponta como a maior inquietação dessas mulheres. 74,9% afirmam ter receio de assaltos e de circular em áreas desertas, enquanto 60% demonstram preocupação com os riscos no tráfego. A questão do assédio surge como uma das maiores preocupações no uso de transportes por aplicativo. Entre os dados, 56,5% dos passageiros relatam episódios relacionados, 51% destacam casos de natureza sexual e 41% apontam situações envolvendo outros condutores.
Entre as mulheres que cogitam dirigir, o medo chega a ser ainda mais expressivo: nove em cada dez potenciais motoristas afirmam temer o assédio sexual. Mas essa percepção muda quando a experiência começa. Uma vez ativas na plataforma, o índice cai para 51%.
Para especialistas, esse dado revela a existência da chamada “espuma do medo”, uma sensação de vulnerabilidade que acompanha as mulheres na cidade, mas que pode ser atenuada com informação, acolhimento e ferramentas de proteção.
Passageiras também sentem essa necessidade de segurança. A mesma pesquisa indica que 93% das motoristas relatam que mulheres preferem viajar com condutoras do mesmo gênero. O dado ajuda a explicar porque, ao mesmo tempo em que cresce a demanda por corridas com motoristas mulheres, muitas ainda enfrentam barreiras para se manter na atividade.
A 99 afirma investir continuamente em recursos de proteção. Só em 2024, foram R$50 milhões aplicados em ferramentas de segurança, e a projeção é de R$ 75 milhões em 2025. A plataforma já disponibiliza mais de 50 funcionalidades voltadas à proteção de passageiras e motoristas, incluindo o Botão 99 Mulher, que permite às motoristas aceitarem apenas passageiras, o monitoramento em tempo real, a gravação de áudio e uma central de segurança 24 horas. Segundo a empresa, tais medidas contribuíram para uma queda de 32,5% nos casos de assédio contra passageiras no primeiro semestre de 2024 em relação ao mesmo período do ano anterior.
Alerta permanente das mulheres
As estatísticas ajudam a dimensionar o problema do assédio em transportes, mas é no relato das mulheres que a violência ganha corpo. Em Uberlândia, a estudante Luisa Santos Nielsen, de 20 anos, relata que, ao pedir um carro por aplicativo com a irmã, ouviu do motorista comentários de cunho sexual sobre a aparência delas antes mesmo de entrarem no veículo.
O início parecia apenas mais uma corrida comum, ela e a irmã estavam arrumadas, prontas para uma festa. Mas, ao entrarem no veículo, a naturalidade do trajeto se transformou em medo. “Quando ela saiu do portão, o motorista falou algo como: ‘Nossa, puta que pariu.” Depois perguntou se a gente estava indo a um casamento porque estávamos muito arrumadas”, lembra. Não houve contato físico, mas a sensação era de ameaça. “O que mais me assusta é perceber que, se você desse qualquer abertura, aquela pessoa faria alguma coisa”, conta.
Esse episódio não foi o único. Luisa descreve outros momentos em que o assédio, mesmo sem agressão explícita, deixou marcas. No ônibus, um homem sentou ao seu lado em um coletivo quase vazio e começou a mostrar o celular, puxando conversa de forma insistente. Em outra ocasião, já em um ônibus mais cheio, a violência foi explícita. Um homem encostou o corpo e passou a friccionar-se contra ela. “Ele estava literalmente me encoxando. Tinha gente vendo e ninguém falava nada. Depois ele foi encoxar outra mulher. Não era sem querer.”
As narrativas mostram o que muitas mulheres reconhecem de imediato. A importunação se expressa tanto nas falas e olhares que insinuam ameaça quanto nos contatos físicos não consentidos. Em todos os casos, o impacto não é apenas momentâneo, ele reorganiza rotinas e hábitos. “Toda vez que eu entro em um aplicativo e percebo alguma coisa estranha, eu já mando a localização. Muitas vezes eu ligo para alguém durante a corrida. Às vezes até finjo uma conversa para que o motorista pense que tem um homem me esperando. Porque o homem só respeita outro homem, não respeita a gente”, completa Luisa.
Essa estratégia é repetida por mulheres em várias cidades brasileiras, criar camadas de proteção simbólica, como simular estar acompanhada, compartilhar trajetos em tempo real ou evitar corridas noturnas. Medidas que revelam como a liberdade de ir e vir ainda é mediada pelo medo. O relato de Luisa expõe também o peso emocional que acompanha essas experiências. O transporte, que deveria ser apenas um meio de chegar de um ponto a outro, se transforma em um campo de tensão permanente. “No ônibus, não tem muito o que fazer. Tento sempre sentar perto de mulheres, mas quando está cheio, você fica sujeita. No aplicativo, você cria estratégias, liga para alguém, compartilha a corrida. Mas nunca é simples só entrar no carro e relaxar. Você está sempre alerta.”
A sensação de vulnerabilidade é atravessada pelo sentimento de solidão diante da violência. Em um dos episódios, mesmo com testemunhas presentes, ninguém interveio. “As pessoas acham normal. Todo mundo tem uma história para contar. Qualquer mulher tem. Pode não ser estupro, mas é alguém que gritou na rua, que passou a mão. As pessoas já veem isso como parte da vida. Quando a gente é menor, principalmente, não sabe o que é assédio. Se alguém te encosta, você fica sem saber se denuncia. Você pensa: será que foi sem querer? Será que vão acreditar em mim? Esse é o peso que carregamos.”
Registrar e comprovar casos de assédio em aplicativos ainda é um grande desafio. Hoje, algumas plataformas permitem gravação de áudio durante as corridas, mas o acesso ao material exige solicitação judicial. “É muito burocrático. Você precisa provar que foi assediada, mas para isso tem que acionar a Justiça, gastar dinheiro. E mesmo assim, muitas vezes não dá em nada. O motorista pode simplesmente mudar de plataforma e continuar trabalhando ", comenta a estudante.
Apesar do medo e da indignação, Luisa reconhece o valor de iniciativas que tentam reduzir riscos. Ela cita aplicativos exclusivos para mulheres, que já chegaram a operar em cidades como Uberlândia, e embora tenham enfrentado dificuldades de adesão e continuidade, afirma que faria uso dessas plataformas sem hesitar.
Ao mesmo tempo, a estudante questiona o paradoxo dessas soluções: por que deveria ser necessário criar plataformas exclusivas para que mulheres se sintam seguras? “Isso não deveria ser necessário. Mas olha onde a gente chegou. Dentro de toda a modernidade, ainda precisamos criar aplicativos para mulheres porque os homens não conseguem se controlar. É bizarro.”
Mesmo reconhecendo avanços tecnológicos e campanhas de conscientização, a entrevistada é cética quanto a mudanças profundas no curto prazo. “Não consigo ver uma mudança drástica nisso. Aplicativos para mulheres podem reduzir os números, mas não vão resolver. O problema é estrutural”, finaliza Luisa.
Transporte exclusivo para mulheres
Como uma forma de auxiliar mulheres que se sentem inseguras ao andar no transporte urbano, surge uma plataforma chamada Lady Driver. Focada no transporte feminino, o aplicativo conecta motoristas e passageiras focadas em sua segurança. Desde o seu lançamento, o aplicativo conquistou uma base sólida de usuárias, contando com 1,5 milhão de downloads de passageiras e um time com mais de 80 mil motoristas cadastradas. Atualmente, ele já opera em mais de 110 cidades brasileiras, incluindo grandes capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Florianópolis. Esses números revelam não apenas a demanda por alternativas de transporte mais seguras, mas também a força de uma comunidade que se apoia.

Evento do Dia das Mulheres em São José dos Campos. Foto: @ladydriverapp
A ideia surgiu a partir da experiência pessoal de Gabryella Côrrea, fundadora e CEO da startup. Após sofrer um episódio de assédio durante uma corrida em um aplicativo de transporte, ela abandonou o carro antes do fim da viagem e decidiu criar uma solução para não passar por isso novamente.
Para fazer sua proposta funcionar, Gabryella contou com o apoio do engenheiro José Pereira, que se tornou sócio e continua na empresa até hoje. Nos primeiros meses, a empreendedora apostou em estratégias afetivas e atraiu mulheres para a causa através da entrega de panfletos, almoços e cafés. O aplicativo foi lançado oficialmente em São Paulo no dia 8 de março de 2017, data simbólica por ser o Dia Internacional da Mulher, e já na estreia reuniu 1,8 mil motoristas cadastradas. Desde então, o Lady Driver se consolidou como um projeto inovador e virou referência em transporte seguro e exclusivo para mulheres.
Além disso, a ferramenta ampliou sua atuação com serviços direcionados a públicos vulneráveis com a criação de outras duas categorias: Lady Kiddos e Lady Care. Essas modalidades reforçam o compromisso da startup com a segurança e o acolhimento dos grupos que mais são expostos a riscos ou limitações de mobilidade.
Lady Kiddos é um serviço de transporte seguro para crianças entre 8 e 16 anos conduzidas por motoristas mulheres, popularmente chamadas no aplicativo como “mãetoristas”. O agendamento pode ser recorrente, permitindo que mães programem ida e volta à escola, aulas e atividades extracurriculares de um jeito mais previsível e confiável. Além disso, o serviço inclui possibilidade de viagens compartilhadas entre crianças, o que reduz os custos.
Já o Lady Care atende idosos e pessoas com deficiência, também com corridas agendadas. A modalidade permite que familiares (normalmente as mulheres titulares da conta) solicitem o transporte para consultas, compras e demais compromissos diários, garantindo uma locomoção segura. Ambos os serviços foram idealizados para reduzir a insegurança e a sobrecarga que muitas mulheres enfrentam ao conciliar trabalho, família e transporte. Esse agendamento traz previsibilidade tanto para as passageiras quanto para as motoristas, que conseguem organizar melhor sua agenda. Além disso, as motoristas que operam nessas modalidades diferentes devem estar entre as melhores avaliadas.
A criação de um aplicativo como o Lady Driver responde a uma demanda social urgente: a insegurança enfrentada pelas mulheres no transporte público e em serviços de mobilidade convencionais. Casos de assédio e violência em trajetos cotidianos são recorrentes, e a possibilidade de contar com motoristas mulheres traz um ambiente de maior confiança, acolhimento e tranquilidade para passageiras que muitas vezes deixam de circular por medo.
Além disso, o Lady Driver impacta diretamente a autonomia econômica das mulheres. A plataforma oferece às motoristas a chance de gerar sua própria renda em um espaço seguro, sem o medo constante de sofrer violência ou constrangimentos de passageiros. Essa parte é fundamental em um país onde a desigualdade de gênero no mercado de trabalho ainda é expressiva e mulheres ainda encontram mais dificuldade de progredir em suas carreiras e recebem salários inferiores aos dos homens.
Outro ponto de relevância está na inovação social. O aplicativo vai além do transporte tradicional e cria soluções específicas para diferentes públicos vulneráveis e mostra como a tecnologia pode ser usada para suprir espaços deixados por serviços convencionais, ao mesmo tempo em que fortalece redes de cuidado e proteção.
Por fim, existe também um caráter simbólico. O Lady Driver desafia padrões que historicamente são masculinos, tanto no setor de transporte quanto no de tecnologia, mostrando que mulheres podem e devem ser protagonistas na criação de soluções que impactam outras mulheres.
A fim de compreender mais a fundo como funciona essa experiência no dia a dia, conversamos com a Thais Diaz, que atualmente reside em Belo Horizonte, atua na plataforma e está criando seu próprio projeto, o Destino Delas. “Eu comecei a trabalhar com aplicativo no início do ano, então eu rodava na Uber e na 99. E durante os primeiros meses eu levava homens também. Só que tiveram situações que me fizeram repensar em levar homens. Não são todos, não é generalizando, mas a maioria falava: 'Ah, não é coisa de mulher, enfim, é muito perigoso.' Até que um dia um cara sentou do meu lado. Em vez de ele sentar atrás, no banco de trás, ele sentou do meu lado e ficou me olhando muito…Desde então, fui fazendo corridas só com mulheres e fui entendendo o tanto que a mulher sofre dentro do transporte, tanto transporte público quanto de aplicativo.”
Ela acumula histórias de passageiras que relatam o medo e a insegurança que enfrentam diariamente em transportes públicos e privados: “A última que eu ouvi e que foi a mais triste e intensa, foi de uma cliente que eu peguei aqui na região de Santa Luzia, trouxe ela para a região da Pampulha e ela estava me contando que um dia um cara pegou ela na casa dela e estava vindo para cá, para esse mesmo lugar. Só que ele pegou a BR no sentido totalmente contrário, ele estava indo para o aeroporto de Confins e ela desesperada pedindo para ele: "Olha, o caminho é para o outro lado, você está indo para o caminho errado". E ele não parava e ela tentava conversar com ele, ele não conversava. Até que uma hora ela falou que ia pular do carro para ele parar. E ele encostou, no que ele foi encostando, ela já pulou do carro. Então, assim, ela diz que passou momentos de terror no carro, que não sabia o que ele ia fazer com ela.”
São especialmente nesses relatos que se revela a importância de iniciativas com o objetivo de oferecer mais segurança às mulheres. Além de oferecer uma alternativa de mobilidade, essas plataformas funcionam como um espaço de acolhimento, no qual passageiras e motoristas compartilham experiências semelhantes e reforçam a necessidade de se pensar a mobilidade urbana sob a perspectiva da segurança das mulheres.
Sobre treinamentos de segurança nos aplicativos de corrida convencionais a motorista diz entender que são necessários: “Entender quais são os momentos de perigo, então, por exemplo, a gente chega num lugar, de madrugada, não tem ninguém lá na porta: deixa o carro trancado. São regrinhas que depois vão fazendo mais sentido e a gente mesmo vai criando, mas poderia ter sido evidenciado num treinamento…”
Quando perguntada sobre a efetividade de projetos só para mulheres, a motorista afirma que não é o bastante, pois a violência contra a mulher é algo enraizado na cultura do Brasil. “Eu acredito que a gente precisa de políticas públicas que possam tanto incentivar a fiscalização desses vagões ou desses ônibus exclusivos para mulheres, mas que também tem algum tipo de incentivo para as empresas privadas, como a Lady Driver ou como a Destino delas, para poder se estruturar, para poder criar ali uma rede de apoio.”
Além de oferecer corridas seguras, ela também transformou sua experiência em conteúdo nas redes sociais, formando uma rede de apoio. Hoje, ao mesmo tempo em que segue atendendo passageiras, ela dá os primeiros passos com seu próprio empreendimento: “Meu projeto de vida é ajudar outras mulheres. Então [a ideia] surgiu dessa vontade e está sendo muito legal criar isso. Eu jamais achei que eu ia fazer vídeo para a internet ou algo assim, mas tem sido muito gratificante ver que tem mulheres que querem esse serviço… E está sendo recompensador. Então eu estou num momento agora de estruturação. Eu não tenho capital, não tenho investimento, mas eu tenho força de vontade.”
Outros projetos
Na mesma pegada, em abril de 2018 foi criado o aplicativo “FemiDriver”, que por também ser um transporte exclusivo para mulheres, se assemelha ao Lady Driver em diversos quesitos; a criadora e CEO, Claucione Lemos, diz que Uberlândia é a cidade que mais utiliza a plataforma.
A Secretaria de Políticas para a Mulher levou para Sorocaba, junto com a Caravana do Gabinete 3D do Governo do Estado de São Paulo, o novo equipamento de atendimento às mulheres, Ônibus SP Por Todas. Ampliando o acesso a serviços de acolhimento, orientação e proteção, o ônibus esteve no município dos dias 23 a 25 de julho.
Essa iniciativa tem se consolidado como mais uma maneira de combate à violência contra a mulher. Ela leva atendimento especializado para diferentes públicos e atua de duas maneiras: em grandes eventos, como shows e feiras, e em bairros que apresentam altos índices de vulnerabilidade social.
Dentro do veículo, o público feminino encontra uma estrutura de acolhimento com equipe técnica capacitada para oferecer orientação e encaminhamentos. O atendimento é sigiloso e humanizado, justamente para garantir que as mulheres se sintam seguras ao procurar ajuda.
E não para por aí. De acordo com o g1, portal de notícias da Globo, a Prefeitura do Rio de Janeiro também sancionou uma lei que determina a criação de um vagão no metrô exclusivo para mulheres. A norma estabelece que ele deverá apresentar pintura externa ou envelopamento na cor rosa, com os dizeres “VLT - exclusivo para mulheres” nas partes laterais, e com circulação obrigatória nos horários das 6h às 10h e das 17h às 20h, de segunda a sexta-feira, exceto em dias de feriado. Se a lei for descumprida, a concessionária do VLT será multada em 1.000 reais por dia, e os usuários em 50 reais.
Num cenário em que a mobilidade urbana ainda representa riscos para aproximadamente metade da população, iniciativas como essas citadas anteriormente reforçam que a garantia de que mulheres circulem sem medo é de extrema importância.
O futuro da mobilidade passa, necessariamente, pela equidade de gênero. E cada quilômetro percorrido nessas plataformas exclusivas simboliza não só deslocamento, mas também conquista de espaço, voz e autonomia.
“Dentro de toda a modernidade, ainda precisamos criar aplicativos para mulheres porque os homens não conseguem se controlar. É bizarro.” Luisa Nielsen
GLOSSÁRIO
ESTUPRO
Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Este crime tem a violência e a grave ameaça como requisito para o tipo penal ser configurado, já que faz parte do rol dos crimes hediondos e por natureza é de uma violência sem igual.
IMPORTUNAÇÃO SEXUAL
Praticar contra alguém e sem a sua aprovação ato libidinoso com o objetivo de satisfazer o próprio desejo ou a de terceiro, como beijar ou apalpar alguém sem o seu consentimento ou ter seu corpo tocado e acariciado sem permissão prévia.
ASSÉDIO SEXUAL
Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função. Ou seja, requer uma relação de trabalho entre as partes, exigindo que o constrangimento ou obtenção de vantagem sexual parta de pessoa hierarquicamente superior à vítima.
Matéria de Valkíria Xavier para o Jusbrasil, 12 de maio de 2021.